Diário de Vida: Sonhos, e a falta deles.

     Nove anos de ensino fundamental mais três anos de ensino médio. Considerando que você não pule ou reprove nenhum ano, isso são treze anos da sua vida em um ambiente escolar. Dentro deste tipo de lugar, muita coisa acontece. Você conhece pessoas que gosta, que não se importa, que odeia, que já odiou mas que hoje valoriza muito(ou ao contrário). Mas nas escolas, tanto de ensino fundamental, quanto de ensino médio, uma palavra tente a se repetir com certa frequência. Essa palavra possui um significado diferente para os adultos, que foram obrigados a realizar uma ressignificá-la para que sejam capazes de sobreviver ao "mundo real" sem se entregar em uma infinita melancolia. "Qual é o seu sonho?" é uma pergunta que todo mundo já ouviu uma vez ou outra, e quando jovens, a maioria tem uma resposta na ponta da língua. Normalmente, os jovens tem como sonhos algum tipos de status ou algum tipo de experiência. "Se tornar um advogado", "fazer direito", "ir pra Disney", "se mãe", coisas do tipo que envolvem um tempo futuro abstrato mas que é mais próximo doque se imagina. No "mundo adulto" os sonhos mudam em essência, eles se tornam objetivos que podem, ou não, ser alcançáveis contanto que a pessoa seja capaz de sacrificar tempo e/ou dinheiro suficiente para tal. 

    Esse é o momento em que você deve está me perguntando: "Tá bom Urii, mas porque tudo isso?". Sonhos sempre foram um tópico chato pra mim. Não no sentido de eles não terem relevância, mas como uma pessoa, cercada de adolescentes proclamando seus objetivos grandiosos, que ouviu a vida inteira a frase "todo mundo tem um sonho", poderia simplesmente falar "eu não tenho um"? Você pode estar pensando que talvez isso não seja tão ruim, que está tudo bem não ter objetivos grandiosos como os outros. Mas sabe, a falta de um sonho não é apenas a falta de um objetivo grandioso, é a falta de um caminho para o qual seguir. Lembro quando fiz meu cadastro no SISU pela primeira vez e eu fiquei umas duas horas olhando para o currículo pedagógico de todas as matérias de todos os cursos da UFSM procurando qualquer coisa que me fizesse pensar "poxa, tá, é isso que eu quero fazer". Eu sinto que boa parte da minha insatisfação com a minha vida atual vem justamente da falta deste objetivo. E não digo necessariamente sobre um "objetivo glorioso", mas apenas da falta de algum tipo de estrela norte para me guiar. 

    Eu tenho 24 anos agora, tive meia dúzias de experiências em trabalhos que não chegaram a completar seis meses. O tempo passa, e eu sinto, cada vez mais, o quanto eu estou destinado a nunca alcançar nada. Você poderia dizer que eu "querer ser bem sucedido" já é um sonho, mas eu discordo. A natureza da coisa é bem diferente ao meu ver. Não se trata apenas de ser bem sucedido, um sonho é sobre ser bem sucedido EM ALGO. E esse "algo" é oque me falta. as vezes eu olho para o passado e vejo como talvez eu tenha sido infantil em algumas das oportunidades que recebi,  talvez eu não soube aproveita-las. Talvez eu tivesse que ter aceitado calado mais certas coisas, talvez eu tivesse que simplesmente ter escolhido qualquer merda e ter ido com ela até o fim. 

    Eu sinto inveja das pessoas. Eu vejo as pessoas se esforçando tanto para serem engenheiros, médicos, advogados, e eu aqui, parado no tempo, procurando desesperadamente qualquer coisa faça os meus olhos brilharem, mas eu nunca acho. Eu sei que a maioria dessas pessoas não vão trabalhar em suas áreas de formação no futuro, mas elas ainda tinham algo pelo oque correr atrás. Um objetivo, algo pelo qual valesse a pena arriscar. Algo que eu não tenho.

    "Tudo isso é apenas drama Urii, você poderia traçar um objetivo e simplesmente segui-lo" talvez, mas eu ainda vou saber que eu estou fazendo não por que eu quero, mas por fazer, e isso vai contra todo o ponto da questão. Quanto a parte disso tudo ser um drama, é bem isso, na verdade. Eu sou uma pessoa um tanto dramática, mas só porque você achou formas de lidar com esse tipo de sentimento, não me obrigue a seguir essa forma também, por favor. A falta de uma estrela norte me deixa perdido na vida, me deixa sem saber oque fazer, pelo oque lutar e pelo oque me esforçar. Tudo oque eu posso fazer hoje em dia é viver "de maneira aleatória", esperando que, um dia, eu consiga definir um objetivo pelo qual vale a pena lutar. Quem sabe assim, eu pare de me olhar no espelho, e veja alguêm derrotado e perdido, sem objetivos e sonhos, que nem sequer tem o direito de ter sua própria história.

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