Diário de Filme: Um sonho de liberdade

    Pra falar a verdade, eu ia escrever algo completamente diferente sobre esse filme. Eu preciso ser honesto e falar que, de início, eu não entendi oque fez esse filme algo tão especial para as outras pessoas. Eu assisti, achei um filme bom, mas nada muito além disso. Comecei a procurar análises, reviews e reacts do filme. Quem sabe assim eu consiga entender? Perceber detalhes que vão me fazer amar o filme. Mas, no meio de todo esse estranho processo, uma coisa muito específica aconteceu. Eu comecei a entender sobre a razão do filme não ter me tocado da maneira que tocou outras pessoas. Eu não descarto a influência do gosto pessoal, mas é como se certas respostas tivessem aparecido pra mim.

    "Um sonho de liberdade" conta a história de pessoas presas e como, aos poucos, a prisão se torna a única coisa que eles conhecem. O filme é sobre a dicotomia da reconfortante esperança e a fria realidade. Não devemos olhar para a história do filme como literal. Tudo é uma grande analogia, tudo é um grande teatro subjetivo. A prisão vai além de quatro paredes formando um muro. É uma rotina, é a prisão da mente, são os hábitos estabelecidos pela sobrevivência, e que já são uma parte da sua alma. O filme é sobre ser preso tanto em corpo, mente e espírito. O filme é sobre o medo da esperança, o medo de acreditar que as coisas podem melhorar, o medo de querer, tentar e falhar. Quando as assas de um anjo são cortadas, o inferno se torna sua casa, e chega uma hora onde seu fogo já não tem mais oque queimar.

    Considerando a era moderna em que vivemos, o filme ser tão aclamado deixa de ser um espanto pra se tornar algo tristemente real. Oque eu estou prestes a falar talvez soa mal, arrogante, ou mesmo como ingratidão, mas talvez a minha incapacidade de me conectar de maneira tão profunda com o filme, seja por ele representar o dilema oposto ao meu. Eu fui criado por uma família funcional. Nunca apanhei dos meus pais. Tive discussões com eles, fazia travessuras com certa frequência, mas um castigo bastava pra eu refletir sobre e entender meus erros. Meus pais brigavam, mas não o faziam na minha frente. Apenas se separaram quando eu tinha idade pra entender oque estava acontecendo, e era o melhor para todos(incluindo a mim). Eles sempre me respeitaram. Quando me assumi bissexual, quando me assumi não-binário. Nunca foi "só" aceitação, sempre foi respeito. Se eu tomasse uma decisão, podiam até contestar, mas a palavra final, no fim, era minha sempre que possível. Quando me candidatei a minha primeira vaga, ao meu primeiro estágio, quando escolhi o curso na faculdade. Eu sempre soube que eles respeitaram meus desejos e não tentariam forçar suas expectativas em mim. Eu podia ir pra qualquer lugar que eu quisesse. Por conta disso, eu sempre fui uma pessoa com gostos diferentes. Eu me interessante tanto pelo subjetivo quanto pelo exato. Pela arte e pela ciência. Mas talvez por eu saber que eu não precisava me privar das experiências, eu nunca tive algo que eu olhava e falasse "é isso". Eu sinto que a vida é um enorme campo aberto, tem um belo mar ao norte, um bosque encantado ao oeste, uma aventura na montanha do sul e uma aconchegante vila ao leste. Todos são lugares que eu queria poder ir, mas sinto que o mundo quer me obrigar a escolher um. Então, fico parado, estagnado, a minha própria prisão sem muros. Uma prisão chamada liberdade. O tempo passa e hoje sinto que existem escolas que eu talvez iria fazer, mas por inação, perdi a oportunidade. Quanto mais o tempo passa, mais eu sinto que o meu "sonho de liberdade" era da própria liberdade. Agora, sinto que a vida adulta vai me devorar. Vejo pessoas da minha idade se formando, correndo atrás de seus próprios caminhos, nem que sejam buracos atrás de pôsteres, e eu aqui, parado, em inação novamente. Talvez quando a prisão chamada de "vida adulta" finalmente me prender por completo, esse será o momento quando eu vou, finalmente, descobrir onde está aquela chama distante, comprar minha picareta de pedras e começar a cavar meu buraco. 

    Talvez eu me identifiquei mais com o filme do que pensei.

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