Diário de Leitura: "Pai Nosso" por Igor Fonseca
"Talvez, se Deus escreve certo por linhas tortas, o Diabo pudesse fazer o mesmo."
Na primeira postagem desse blog, eu falei que meu namorado tem me influenciado a começar a ler e por conta disso, comecei a leitura de um livro nacional bem interessante. Antes de falar sobre ele, gostaria de propor um desafio pra você. Imagine que existe algo em que você acredita. Chame do que quiser. Deus, Orixás, Energias Cósmicas, o nome importa pouco. Agora, imagine que você não apenas dedicou sua vida a esta fé, este propósito, este dever para com algo maior que a existência do mundo terreno, ao ponto de que, agora, está a um passo de se tornar um guia para todas as pessoas que compartilham de tais crenças. Agora imagine que, em um piscar de olhos, todas as suas certezas são quebradas pelo horror de um crime sem perdão, de um pecado sem expiação. Oque você faria? Você acha que impediria o crime de acontecer? Você acha que teria a coragem de ir contra tal crime, sabendo que aquele que o comete, na teoria, representa tudo oque você vive? A imensa maioria das pessoas que estão lendo responderiam com "É claro" ou "Obvio" ou "Sem sombra de dúvidas. Falar é fácil, mas as vezes, o medo toma conta de nós sem nem sabermos que ele estava lá.
"Pai Nosso" conta a história de Daniel, um jovem de 24 anos recêm tornado padre. Um feito considerado prodigioso para seus pares. E então, logo na primeira semana, ele vê Diógenes, o padre que está prestes a se aposentar e seu antecessor responsável pela igreja, entrando com uma criança em uma sala privada. Talvez a pior parte disso tudo não seja oque acontece na história em sí, mas é como nós, leitores, entendemos muito rapidamente oque está acontecendo. Isso já aconteceu tanto em nosso mundo real, que as explicação real do ocorrido vem do nosso próprio mundo. Esse é o verdadeiro terror desta historia. Nosso protagonista corre em direção a porta, um primeiro instinto que corresponde com a sua provável resposta para as minhas indagações anteriores. Mas ao ouvir a voz fina da criança, dentro da sala, Daniel trava. Ele não consegue fazer com que seu corpo se mova. O maior dos pecados está sendo cometido dentro da casa de Deus, e Daniel fraqueja. E assim, nossa historia se desenrola. Com a culpa de Daniel corroendo sua mente, até seu completo afastamento de tudo que ele acreditava.
"Com o tempo, compreendi que o sofrimento também é uma das vias para alcançar a santidade. Para alguns, apenas a dor é capaz de revelar a parte mais sublime de suas almas"
Beleza, agora que você conhece a historia, deixa eu me soltar um pouco. A historia escrita por Igor Fonseca é bizarra de boa. Ela tem um tema muito claro, "oque é a culpa para um fiel?". Essa é uma historia de base religiosa, mas, com o perdão do trocadilho, não tenta santificá-la ou demonizá-la. Fonseca trata o assunto da religião católica com muito respeito e carinho por algo que está tão conectado com nossa cultura e história. Para mim, que escolheu um livro aleatória para ler apenas porque meu namorado tem me influenciado a começar a ler, foi uma ótima primeira impressão, tanto do hobby de leitura, quanto deste tal de "Horror Gótico", como o autor denomina. É difícil não seguir o viés de que tudo que Daniel fala e vê é a mais pura verdade. Nós estávamos com ele, vimos oque ele viu, nós sabemos muito bem oque Diógenes fez. A culpa consome Daniel na mesma intensidade em que a apreensão da incapacidade dele de fazer algo corrói o leitor, trazendo o mesmo sentimento de impotência de Daniel.
Minhas interpretações pessoais sobre oque Daniel vivenciou, entretanto, me levam a lugares diferentes do que a maioria das pessoas teria. Daniel se acovardou frente ao medo de ter tudo pelo oque ele se sacrificou, destruído em menos de segundos. Existem dois tipos de pessoas. Uns dirão que a covardia de Daniel o torna cumplice, outros dirão que o tornam vítima da impotência. Eu digo que Daniel é, sim, cúmplice. Mas não por ter se acovardado, mas por achar que ele merecia o sofrimento da inação, e portanto, no fundo, ele sentia que o fardo de carregar o conhecimento de que tal coisa aconteceu era a forma que ele tinha de expiar seus próprios pecados. De certa forma, ele tornou a criança em um algum tipo de Messias, alguém cujo o sofrimento o faria sofrer, e portanto, limparia seus pecados. O nosso mundo é assim hoje em dia, nós vemos o sofrimento alheio em níveis horrendos, e desejamos desesperadamente fazer alguma coisa, mas mesmo que possamos, nós não o fazemos. Nosso mundo é indiferente a sua própria empatia, nós sofremos pelo sofrimento dos outros, mas ignoramos isso, dizemos que não a nada a ser feito, por que esse é o único jeito de continuar sentindo a culpa de não ter feito nada. É o único jeito de continuar cedendo ao nosso, agora cômodo, desespero.
Você pode comprar "Pai Nosso" neste link.
Comentários
Postar um comentário