Diario de Vida: Meu melhor amigo

     As festas de fim de ano possuem um peso diferente para mim quando comparado com a maioria das outras pessoas. Sabe, meu pai fazia aniversário dia 25 de dezembro. No natal, nós íamos à casa do meu tio e desfrutávamos de uma farta seia de natal. Entretanto, as coisas mudaram em 2018. Meu pai, internado no Hospital Universitário de minha cidade, faleceu. Câncer. Eu não acredito que ele tenha "perdido a luta". Eu sei, melhor do que qualquer um, o quanto ele lutou. No fundo, ele era um homem tranquilo, alguém que estava assutado, mas que tinha aceitado oque estava por vir. Ainda assim, ele lutou, se esforçou ao máximo. Ele queria viver, não por ele, mas por mim e pela minha irmãzinha. Um esforço hercúleo. Não de alguém que tinha algo a perder, mas de alguém que tinha a quem proteger. Ele era meu pai, meu melhor amigo, alguém que eu enxergava como um exemplo, tanto de como agir, quanto de quais atitudes dele ignorar. Eu gosto de acreditar que tive uma boa criação. Tanto de meu pai, quanto de minha mãe. Eles me ensinaram o valor do respeito, da verdade, do carinho para com os outros e para consigo. Eles me ensinaram que eu deveria aprender com os seus erros e acertos e não aceitar me sentir desrespeitado, mesmo que, às vezes, talvez tal sentimento viesse deles. 

    Meu pai faleceu em uma tarde comum. Era meu primeiro semestre na faculdade de dança, lembro de ter recebido uma ligação quando estava no restaurante universitário, precisei sair correndo sem terminar o almoço. Por sorte, era menos de uma quadra de distância. Quando cheguei, ao invés de subir ao quarto dele, fui direcionado, junto de meu tio, escadas abaixo, onde eu vi meu pai em estado muito grave. Lembro que minha mente nunca processou direito essa informação. Eu agi como se fosse só mais um encontro normal com meu pai. Não sei dizer se eu tinha certeza que ele iria se recuperar, então não dei muita bola, ou se eu já tinha aceitado oque iria acontecer. Quando minha mãe chegou, eu saí do quarto, só podiam duas pessoas por vez. fora do hospital, meu primo me levou até o prédio de minhas aulas, a minha mochila tinha ficado lá, já que a aula durava manhã e tarde. Pedi a uma colega que falasse com a professora para que explicasse a situação e voltei ao Hospital. Esse afastamento não durou mal 20 minutos. Quando voltei, estavam todos chorando e minha mãe me abraçou. "Seu pai já foi" ela falou. Durante os próximos dias, eu não derramei uma única lágrima. E, novamente, não sei dizer o porquê. Gosto de pensar que eu quis me manter forte para que o espírito dele pudesse cruzar com tranquilidade. Se eu chorasse, talvez seria mais difícil para ele ir em paz. Eu não sigo uma religiosidade. Mas também não sou tolo de bater o martelo se existe ou não algo após a morte. A chance de existir me manteve em cheque, esperando que, se algo o esperasse do outro lado, que fosse tranquilo e gentil.

    Os natais nunca foram os mesmo depois disso. Enquanto a maioria das pessoas olha como um tempo feliz, eu olho como um momento de lembrança do homem tão especial para mim, mas que já foi. Eu ainda rio, aproveito a seia, brinco. Mas a introspecção reina em minha mente. Isto não é algo ruim. Pensar naqueles que se foram é uma tradição muito antiga dos vivos. Para algumas pessoas (e eu gosto de acreditar que sou uma delas), o passado é uma força de mudança poderosa. Olhar para trás nos permite ter a força necessária de buscar o futuro.

    Eu lido com várias coisas na minha mente, depressão sendo a mais forte delas. Eu preciso constantemente lutar contra esse sussurro em minha mente, desejando as piores atrocidades para mim. Tudo que quero é, um dia, poder olhar para meu espelho, e sentir orgulho e alegria da pessoa que me tornei. Só assim poderei realizar o único sonho que meu pai disse que tinha para comigo.

"Tenha uma vida feliz"

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