Diário de Livro: Duna de Frank Herbert
"Clássicos" são chamados assim por um motivo. Eles não são necessariamente bons, mas eles, de alguma forma, moldaram os dias de hoje. Depois de ler o primeiro livro, consigo entender como ele moldou as coisas para a ficção científica. E digo mais, ele é um ótimo exemplo de fantasia em uma escala geral. Duna é, praticamente(pra não dizer "totalmente") uma historia de "Coming of Age", sobre como um rapaz de uma família nobre descobre o quão profundo o jogo político do universo realmente é. Pra dar uma colher de chá, Paul(O protagonista) foi treinado desde muito cedo pra isso, mas ser treinado é uma coisa, ter que lidar com um golpe de estado de uma casa rival que massacrou sua família e escraviza seu povo, tudo isso enquanto acaba sendo forçadamente se tornando um viciado em uma droga que revela que o seu treinamento o transforma em algo que mal pode chamar de humano é, pra dizer o mínimo, bem diferente.
É legal de perceber como o livro inspira as gerações futuras, enquanto você lê, você se lembra de obras modernas, e ainda repara que, direta ou indiretamente, foram as obras modernas que se basearam em Duna. Eu acho que oque mais gosto, na obra como um todo, é o quão difícil é a situação mental de Paul. Ele está nesse meio termo de "Fazer oque tem que ser feito" e "Eu sei quais são as consequências das minhas ações, e eu não quero isso". Medo é uma força motriz em toda a historia, para todos os personagens, mas principalmente para Paul, que tem que lidar com o seu destino terrível. Uma coisa que acho muito estranha sobre, é como algumas pessoas dizem que o autor falhou em seu objetivo de criar uma "crítica sobre líderes carismáticos". O Paul está, o tempo inteiro, apontando as consequências que suas ações terão, como oque ela está fazendo trará o caos e a destruição pelo universo, como ele está se tornando o gatilho de uma guerra santa. Duna é a tragédia de um jovem que se vê obrigado a tomar o poder do universo mesmo querendo paz, é a tragédia de um jovem que vê o monstro que está se tornando e não consegue impedir, é tragédia de alguém que sabe que sabe que sabe que é o mestre das cordas de um povo, e ao mesmo tempo, sabe que é um mero boneco de tudo e todos. Duna é sobre como a vida pode obrigar um garoto de bom coração a assumir um propósito terrível. É sobre como um líder carismático pode levar todo um povo a guerra e tornar os oprimidos e opressores. Talvez Herbert não tenho colocado tantos momentos que demonstrem isso quando poderia. Mas acho que os que colocou, junto aos constantes avisos de Paul aos leitores que oque está acontecendo não é algo bom, foi o bastante. Mas eu posso, também, estar apenas tentando me colocar em um pedestal de "Eu entendi mais doque você".
É triste pensar como as críticas e observações de ecologia presentes em Duna se fazem válidas até hoje, como o desconhecimento sistêmico da natureza de um planeta pode matar tudo. Como os olhos cegos da ganancia e do poder podem ignorar aquilo que traz o seu lucro pra começo de conversa. O "Melange" é isso, uma demonstração de como aqueles que podem, não se importam com o "como", e quando a fonte de lucro acaba, eles apenas se movem para a próxima, sem se preocupar com o dia que não terá mais com oque lucrar com.
Duna por inteiro é uma olhar atento ao futuro da humanidade. Era naquela época, e continua sendo agora(infelizmente). É um aviso, e um lembrete. É uma memória e uma profecia. Não somos apenas dados, não somos apenas informações a serem coletadas, não somos meros instrumentos de raiva e vingança. Ninguém que chega no poder, realmente, olha para nós como somos. Somos avalanche na montanha do tempo. Não dependemos do destino. Ele que depende de nós.
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